Automação · 9 min de leitura

Três sistemas construídos em 11 dias, 2 semanas e cerca de 3 semanas, cada um tirando um trabalho manual do caminho. A IA escreveu a maior parte do código. O que encurtou o prazo foi o método em volta dela.

Anderson Silveira · 1 de outubro de 2026

Em setembro de 2026, uma distribuidora de lubrificantes tinha um processo que qualquer operação pequena conhece: o pedido chegava como foto de papel no WhatsApp, e alguém redigitava tudo. O sistema de pedidos e estoque que construí para ela foi do primeiro commit à versão atual em 11 dias, já rodando no servidor do cliente. Em junho, o Glint, uma plataforma de eventos que vai da página de vendas ao reembolso, levou cerca de três semanas. Em agosto, a primeira versão completa do Kitnets, uma plataforma de locação e gestão de kitnets, saiu em duas semanas.

Nos três, agentes de IA escreveram a maior parte do código. Mas, se eu tivesse de apontar o que encurtou o prazo, não seria a IA. Seria entender o trabalho manual antes de automatizá-lo, e o método em volta da IA.

O momento em que isso ficou claro foi no Glint. A primeira versão dos setores travava a lotação no checkout. Funcionava. Só que o painel mostrava lotes com vagas num setor que já não tinha espaço. A correção não pediu tela nova: a trava mudou de lugar e passou para a configuração. A soma dos lotes de um setor não pode passar da capacidade dele. Um agente escreve qualquer uma das duas versões em minutos. Decidir qual é a certa é trabalho de produto, e é esse trabalho que define se o sistema fica pronto em semanas ou vira um ciclo sem fim de retrabalho.

O método, em cinco partes

  1. 01Discovery curto

    Problema, público, regras de negócio e o que fica fora.

  2. 02Modelo antes da tela

    Entidades, relações e onde cada regra mora.

  3. 03Fatias que vão ao ar

    Ondas pequenas, cada uma utilizável.

  4. 04IA com revisão humana

    Agentes escrevem; pessoas aprovam plano e entrega.

  5. 05Testes como trava

    A suíte barra a entrega, e o fluxo é visto rodando.

O método que se repetiu no Glint, no Kitnets e no sistema de pedidos. A IA entra com força a partir da terceira etapa; as duas primeiras são de produto.

1. Discovery curto, mas com prova

Curto não quer dizer raso. No Kitnets, antes de qualquer tela, fiz uma descoberta de mercado com verificação cruzada: 36 afirmações sobre concorrentes, preços e regras técnicas, todas confirmadas. Dela saíram um documento de requisitos com 12 blocos de funcionalidade e 60 critérios de aceite, e um roteiro de 29 épicos em três ondas.

Três achados mudaram o produto. A vitrine pública era o diferencial, porque nenhum concorrente voltado à pessoa física tinha uma funcionando. O aluguel precisava de um meio de pagamento brasileiro, com Pix e boleto, diferente do que cobra a assinatura do software. E a postura jurídica virou regra de produto: a plataforma é software e meio de pagamento, nunca intermediária. Nenhum desses achados viria de pedir “faça um sistema de aluguel” a uma IA.

No sistema de pedidos, o discovery coube numa decisão: não pedir para ninguém mudar de hábito antes de ganhar alguma coisa com isso. O comprador já mandava foto da anotação no WhatsApp. Então o sistema aceita a foto, a IA lê, e uma pessoa confere linha por linha antes de confirmar.

2. Modelo de dados antes da tela

É a etapa que mais economiza tempo depois. No Glint, separei o evento em camadas antes de desenhar: Evento → Setor → Tipo de ingresso → Lote. Setor é a área física, com capacidade. Tipo é a condição comercial. Lote é a escada de preço.

  • Evento
    • SetorÁrea física, com capacidade
      • Tipo de ingressoInteira, meia, passe de um dia
        • LoteVira por data, por percentual vendido ou por esgotamento
O modelo do Glint, decidido antes das telas. Os exemplos de setor, tipo e lote seguem o case; a trava de capacidade mora no setor.

Com o modelo certo, a pergunta “onde mora a trava de capacidade?” tem resposta: no setor. A tela só obedece.

O sistema de pedidos mostrou o mesmo princípio por outro lado. No meio do projeto, o cliente pediu para tirar o preço de todas as telas, porque cada comprador tem a sua negociação. Parecia uma mudança grande. Saiu barata, porque a decisão já morava num lugar só e as telas apenas a obedeciam. Quando uma regra de negócio tem um endereço só, mudar de ideia custa pouco.

3. Fatias que vão ao ar

Em vez de um grande lançamento, o trabalho anda em ondas pequenas, e cada onda entrega algo que alguém consegue usar. No sistema de pedidos, a primeira versão entrou no ar em poucos dias, e depois vieram ajustes quase diários a partir do que o cliente pedia: venda por caixa, preço oculto, agenda de retirada. O Kitnets seguiu o roteiro de três ondas do discovery. No Glint, cada funcionalidade virou uma ficha no repositório, com objetivo, critérios de aceite, cenários felizes e não felizes e riscos; o catálogo tem um documento mestre e 21 fichas, e serviu de contrato entre design, código e teste.

Fatia que vai ao ar tem uma vantagem que nenhuma reunião substitui: o cliente reage a algo real, e a próxima onda nasce dessa reação.

4. IA no desenvolvimento, com humano revisando

No Kitnets, o código foi escrito 100% por agentes de IA, num processo que eu desenhei: cada demanda vira uma tarefa com etapas, um agente “contestador” ataca o plano antes do código, e documento de requisitos, plano técnico e melhorias passam por aprovação humana. No Glint, as entregas grandes foram divididas em ondas executadas por vários agentes em paralelo, com revisões adversariais nas partes que mexem com dinheiro e segurança.

Uma dessas revisões achou o risco de estorno duplicado com dois cliques simultâneos no reembolso. A correção garante que o item é cancelado primeiro, de forma atômica, e só então o dinheiro volta. Esse é o tipo de falha que o caminho feliz não mostra.

O papel humano não diminui. Ele muda de lugar: sai de digitar código e vai para decidir o que entra, o que fica fora e onde um humano precisa estar no meio. No sistema de pedidos, a regra virou princípio de produto: a IA propõe, o humano confirma. Errar a embalagem de um tambor de 200 litros não é um erro barato.

5. Testes que travam a entrega

No Kitnets, uma suíte que tenta acessar dados de outro proprietário cresceu a cada épico e trava a entrega se falhar. A suíte do Glint passou de mil testes, incluindo o isolamento entre organizadores.

Mas teste verde não é sistema funcionando. No sistema de pedidos, a suíte passou inteira enquanto a API, rodando de verdade, respondia erro no catálogo: os testes liam uma versão do código e o servidor lia outra. Por isso, depois do verde, alguém passa o fluxo no sistema em pé, olhando a tela. Escrevi mais sobre isso em Validar antes de construir.

Os três projetos lado a lado

GlintKitnetsSistema de pedidos
O que éPlataforma de eventos e ingressosLocação e gestão de kitnetsPedidos B2B e estoque
O trabalho manual atacadoReembolso por e-mail e certificado montado à mãoLembrete no WhatsApp pessoal e Pix conferido no extratoRedigitar a foto do pedido e conferir o estoque de cabeça
PrazoCerca de 3 semanas2 semanas (primeira versão completa)11 dias (do primeiro commit à versão atual)
Decisão de modeloTrava de capacidade no setorCobrar pela plataforma é opcionalSaldo de estoque é um extrato, não um campo
Onde o humano ficaRevisão adversarial de dinheiro e segurançaAprovação de requisitos, plano e melhoriasConfirmação de cada linha lida pela IA
Trava de qualidadeMais de mil testesSuíte de isolamento a cada épicoFluxo visto no sistema rodando

O prazo curto não veio de cortar etapa. Veio de cada etapa ser curta, e de nenhuma ser pulada.

Quando NÃO automatizar sob medida

Automação sob medida não é a resposta padrão. Eu recomendaria não fazer quando:

Quanto o processo é diferencial do negócio →
Sob medida faz sentido
Avaliar: adaptar uma ferramenta pode bastar
Planilha ou processo antes de sistema
Comprar pronto
Quanto o mercado já resolve o problema →
Leitura minha para decidir entre construir e comprar. Os quadrantes são orientação, não regra.
  • Uma ferramenta pronta resolve quase tudo. Contabilidade, folha de pagamento, e-mail marketing: se o seu processo é igual ao de todo mundo, pague a assinatura. Sob medida vale quando o processo é o que diferencia o negócio, como a foto do pedido que o comprador já mandava ou a lotação amarrada ao espaço físico do evento.
  • O processo ainda não existe. Se a operação muda toda semana, comece numa planilha. Sistema cristaliza regras; regra que ninguém definiu vira retrabalho.
  • Ninguém do lado de vocês é dono do produto. Alguém precisa responder rápido “isso entra ou não entra?”. No sistema de pedidos, as mudanças de regra vieram do cliente, e foi isso que manteve os ajustes quase diários no rumo certo.
  • Não há quem cuide do sistema depois. Sistema no ar pede atualização, monitoramento e alguém que responda quando algo falha. Se isso não tem dono, o sistema envelhece mal.
  • A expectativa é “a IA faz tudo”. A IA acelera o código. Ela não decide onde mora a trava de capacidade, nem se a leitura da foto pode virar pedido sem conferência.

O que eu faria diferente

  • Pôr usuários reais na frente mais cedo. No Kitnets e no sistema de pedidos, as dores vieram do discovery de mercado e do processo descrito, não de entrevistas. Fatias curtas tornam essa rodada barata; vale fazê-la antes de ligar as partes mais caras.
  • Conferir a mudança de regra em todas as telas, no sistema rodando. Quando o preço saiu das telas do sistema de pedidos, dois lugares ainda imprimiam um valor zerado. Nenhum teste reclamou; eu só vi passando o fluxo inteiro.

Checklist antes de automatizar sob medida

  • O processo que o sistema vai apoiar é um diferencial do negócio, e não algo que uma ferramenta pronta resolve?
  • O discovery deixou escrito o problema, o público, as regras de negócio e o que fica fora?
  • O modelo de dados foi desenhado antes das telas, com cada regra num lugar só?
  • O trabalho está dividido em fatias pequenas que vão ao ar?
  • Está claro onde a IA propõe e onde uma pessoa decide?
  • Planos e entregas passam por revisão humana, com atenção redobrada em dinheiro e segurança?
  • Os testes travam a entrega, e alguém passa o fluxo no sistema rodando?
  • Existe um dono do produto do lado da empresa?
  • Já está definido quem cuida do sistema depois que ele entra no ar?

Como posso ajudar

O que a sua equipe faz na mão, dá para automatizar. Se existe um trabalho repetitivo na sua operação, um pedido redigitado, um documento lido um a um, uma planilha conferida à mão, eu posso conduzir do mapeamento do processo à primeira versão no ar, ou ajudar a decidir se automatizar sob medida é mesmo o caminho. Os cases do Glint, do Kitnets e do sistema de pedidos mostram o processo em detalhe. Fale comigo.

Na prática, nos cases
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