Para descobrir o que automatizar primeiro, não pergunto o que a pessoa quer do sistema. Peço para ela me mostrar a última vez que fez o trabalho, e depois escuto.
Anderson Silveira · 3 de setembro de 2026
Num escritório de advocacia, os advogados já usavam IA para ler dossiês, cada um no seu chat, com um conjunto de instruções escritas pelo próprio escritório. Quando fui construir o agente jurídico para eles, a pergunta era qual parte desse trabalho automatizar primeiro.
Eu não perguntei como eles queriam o produto. Documentei como eles já trabalhavam, a partir das telas de uma sessão real. Desse retrato saíram os requisitos que mais se perdem numa migração: a conclusão binária (“eu ajuizaria hoje?”), a lacuna documental acompanhada da defesa que ela abre para o outro lado, a obrigação de declarar o que não se conseguiu ler. Nenhum deles teria saído de “o que você gostaria que o sistema fizesse?”.
A segunda rodada veio com o produto no ar, quando levei ao advogado que o usa uma lista de pendências. A devolutiva dele mudou regras que eu achava fechadas.
Uma delas era pequena e constrangedora. A esteira de casos tinha um alerta amarelo, e a legenda da tela dizia “7 dias úteis”. O código contava 10 dias corridos. Quem apontou a diferença foi a pessoa que trabalha com prazo todo dia. Outra era de fundo: o parecer que ele usava como referência de qualidade era deliberadamente conservador em prognóstico. Se a máquina saísse mais afirmativa do que ele, isso não era uma melhoria. Era um erro a corrigir. A frase virou critério de avaliação do sistema.
Nada disso teria aparecido se eu tivesse perguntado “o que você está achando do produto?”. Apareceu porque a conversa foi sobre o trabalho dele, com o material dele na mesa. Este artigo é sobre como provocar esse tipo de conversa com quem faz o trabalho manual que você quer automatizar: quem chamar, o que perguntar, o que não perguntar e o que fazer com as anotações.
Para que serve uma entrevista
Entrevista é boa para entender comportamento passado, contexto e motivação: como a pessoa resolve o problema hoje e o que já tentou.
Entrevista é ruim para:
- Prever comportamento futuro. “Você pagaria por isso?” gera um sim barato.
- Validar usabilidade. Para saber se a pessoa consegue usar uma tela, coloque a tela na frente dela e observe.
- Medir. Poucas conversas mostram padrões e hipóteses, não percentuais.
Para quem quer automatizar, isso tem uma consequência prática. O que vale automatizar primeiro é o que a pessoa faz hoje, do jeito que faz, com o custo que tem. Não é o que ela imagina que um sistema poderia fazer. Por isso a entrevista olha para trás, e não para o produto.
Recrutamento: quem você ouve decide o que você aprende
Se o recrutamento chamar as pessoas erradas, o melhor roteiro do mundo não salva. Os critérios que considero mais importantes:
- Quem faz, não quem pede. O gestor sabe que o trabalho existe. Quem executa sabe onde ele trava, e é ali que a automação vai ou não funcionar.
- Comportamento, não demografia. “Protocolou uma execução no último mês” filtra melhor do que “advogado de 30 a 45 anos”.
- Recência. Quem viveu o problema na semana passada lembra dos detalhes.
- Fugir do usuário favorito, e incluir quem desistiu. Um representa pouco a média; o outro explica o que nenhum usuário ativo explica.
Um produto feito para um escritório só tem um limite óbvio aqui: o universo de usuários é pequeno, e uma pessoa concentra boa parte do conhecimento. Isso torna ainda mais importante separar o que ela faz do que ela diz que faz, porque não há uma segunda amostra para desempatar.
O roteiro
O roteiro é uma lista de temas, não um questionário lido em voz alta. Para conversas de 30 a 45 minutos:
- Abertura (2 a 3 min). Quem você é, para que serve a conversa, pedido para gravar.
- Contexto (5 min). O papel da pessoa, a rotina, onde o tema entra no dia dela.
- A última vez (15 a 20 min). Reconstruir, passo a passo, a última situação real em que o problema apareceu.
- Tentativas e custos (5 a 10 min). O que já tentou, o que usa hoje, o que a fez trocar.
- Fechamento (3 min). “Tem algo que eu deveria ter perguntado e não perguntei?”
Com um produto já em uso, a “última vez” ganha uma forma melhor: o último caso real. As pendências que levei ao advogado não eram perguntas abstratas sobre o produto. Eram situações concretas da esteira, e ele respondeu a cada uma com o que faz na prática.
Pergunte sobre o passado, não sobre o futuro
O livro The Mom Test, de Rob Fitzpatrick, resume a ideia: sua mãe vai dizer que a sua ideia é ótima, porque ela te ama. Uma boa pergunta é aquela que nem a sua mãe consegue responder com uma mentira gentil. Três regras:
- Fale sobre a vida da pessoa, não sobre a sua ideia.
- Pergunte sobre situações específicas do passado, não sobre intenções futuras.
- Fale menos e escute mais.
Na prática, a diferença está na formulação. Os exemplos abaixo são ilustrativos:
| Pergunta ruim | Por que é ruim | Pergunta boa |
|---|---|---|
| Você usaria um sistema que redige a petição? | Pede uma previsão, e a resposta educada é sim | Me mostra a última petição que você protocolou. De onde veio cada parte dela? |
| Você acha que isso seria útil? | Pede opinião sobre a sua ideia | Como você resolve isso hoje? |
| Quanto você pagaria por isso? | Preço hipotético não é preço | Você já paga por alguma ferramenta para isso? Qual, e por quê? |
| Você tem dificuldade para controlar os prazos? | Sugere a resposta e cabe num sim ou não | Qual foi o último prazo que apertou? Como você descobriu? |
| O que você gostaria que existisse? | Transfere o design para o entrevistado | O que você fez na última vez que isso deu errado? |
| Com que frequência você faz isso? | Gera uma média inventada | Quando foi a última vez? E a vez anterior? |
A pergunta mais útil é quase sempre alguma versão de “me conta a última vez que…”, ou, melhor ainda, “me mostra”.
O pedido esconde a necessidade
Uma variação do mesmo problema: o pedido pronto. O escritório pediu, logo no começo, que “os agentes aprendessem”. Tomado ao pé da letra, o pedido levaria a treinar um modelo. Pesquisei esse caminho e ele não fechava: sem oferta para os modelos atuais, caro de manter e arriscado com dado de cliente.
Por trás do pedido havia outra pergunta: como o sistema fica melhor com o nosso jeito de trabalhar? Essa tinha outra resposta. O modelo fica fixo e o contexto evolui: lições curtas aprendidas das correções do escritório, propostas pela máquina e promovidas por um sócio. Tratar o pedido como hipótese, e não como requisito, foi o que abriu essa alternativa.
Os vieses que mais estragam uma conversa
Viés de confirmação
Você chega com uma hipótese e presta mais atenção no que a confirma. Eu vivi a versão automatizada desse viés: uma auditoria automática do projeto marcou como defeito crítico a página de trabalho que a minuta leva no fim (“excluir antes do protocolo”). Pelo padrão do escritório, essa página é justamente o que a casa manda fazer. O critério da auditoria era a minha suposição, não a prática dele. A correção foi manter a página e limpar só o jargão do corpo.
O antídoto é escrever a hipótese antes da rodada e procurar ativamente o que a derrubaria.
Pergunta indutora e viés de cortesia
“Não seria mais fácil se isso fosse automático?” já contém a resposta. E elogio, entusiasmo e “com certeza usaria” são o sinal mais fraco numa entrevista. Perguntas curtas e neutras (“como foi?”, “o que aconteceu depois?”) e a volta ao comportamento resolvem os dois.
Durante a conversa
- Duas pessoas, papéis separados. Uma conduz, a outra anota.
- Silêncio. Depois de uma resposta, espere três segundos antes da próxima pergunta.
- Peça para mostrar. Uma peça, uma planilha, um documento real valem mais do que qualquer descrição.
- Anote a palavra dele, não a sua. O vocabulário é dado.
O último ponto teve efeito direto no produto. Depois do manual do advogado, a interface trocou de vocabulário: “Aprovar” virou Homologar, “briefing” virou Orientação para a peça, e os tipos de análise ganharam os nomes que ele usa. A peça passou a seguir regras de linguagem que só alguém da prática explicita: os nomes das partes mudam conforme a classe da ação e nunca se misturam, a lei aparece sempre por extenso, e é “contrarrazões”, nunca “contraminuta”.
O mesmo princípio vale fora do Direito. Numa distribuidora de lubrificantes, o pedido chegava como foto de uma anotação no WhatsApp, e alguém redigitava tudo do outro lado. O ponto de partida não foi perguntar como os compradores queriam pedir, e sim descrever o que a operação já fazia. O sistema manteve o gesto de fotografar e tirou a redigitação, e aprendeu o vocabulário do balcão: “balde” é 20 litros, “tb” é tambor.
Sintetizar logo depois de cada conversa
A memória de uma conversa se degrada rápido. Reserve 15 minutos logo depois para uma síntese curta, separando fatos (o que a pessoa fez e contou), regras (o que ela explicitou como obrigatório), vocabulário e perguntas abertas.
Fatos 3
- A legenda prometia 7 dias úteis; o sistema contava 10 corridos
- Um campo que eu esperava na planilha de lote é cadastro em outro sistema
- A página “excluir antes do protocolo” no fim é padrão da casa
Regras 3
- Máquina mais afirmativa que o advogado é erro, não refinamento
- Na dúvida, monitória, com o motivo
- Recurso dispensado com fundamento nunca vira peça
Vocabulário 3
- Aprovar → Homologar
- Briefing → Orientação para a peça
- Contrarrazões, nunca contraminuta
Perguntas abertas 3
- Os nomes das partes na busca e apreensão
- O valor da causa nesse tipo de ação
- O fecho padrão muda conforme o tipo de peça?
As perguntas abertas não ficaram num caderno. Foram anotadas dentro das próprias instruções que redigem aquele tipo de peça, para que a próxima pessoa a mexer ali saiba que a regra ainda não foi validada.
O ciclo inteiro
Entrevista não é um evento isolado. É um ciclo curto, que se repete enquanto cada rodada ainda ensina algo novo.
- 01Levar o real
Casos, telas e documentos do próprio usuário, não uma apresentação.
- 02Perguntar pela prática
O que você faz nesse caso? Por que essa página existe?
- 03Sintetizar
Fatos, regras, vocabulário e perguntas abertas, no mesmo dia.
- 04Devolver no produto
Cada regra vira comportamento; cada dúvida fica anotada onde será usada.
O que eu faria diferente
- Levar o produto ao usuário mais cedo, com o material dele. O erro da legenda e o da auditoria só apareceram quando o advogado confrontou o sistema com a própria prática. Uma rodada assim antes teria custado menos.
- Perguntar “por que isso existe?” antes de chamar algo de defeito. A página de trabalho no fim da minuta era uma decisão da casa. Eu a classifiquei sem perguntar.
- Conferir o documento do usuário como confiro o meu. O manual dele foi a melhor fonte do projeto, e ainda assim tinha duas imprecisões. Fonte boa também se verifica.
Checklist para a próxima rodada
- A triagem filtra por comportamento recente, e não por perfil?
- A conversa parte de um caso, um documento ou uma tela real do usuário?
- As hipóteses do time foram escritas antes das conversas?
- O roteiro pergunta sobre a última vez, e não sobre o que a pessoa faria?
- Os pedidos prontos (“quero que aprenda”) foram tratados como hipótese?
- Existe alguém só para anotar, e as palavras do usuário foram anotadas literalmente?
- O que a pessoa diz que faz foi conferido com o que ela de fato produz?
- Cada pergunta aberta ficou registrada no lugar onde a resposta vai ser usada?
Se o time sair da rodada com uma lista de desejos e nenhuma história concreta de trabalho feito, as entrevistas não falharam por falta de gente. Falharam na pergunta.