Num agente jurídico e num pedido por foto, a regra foi a mesma: tudo o que a máquina produz é proposta até uma pessoa aprovar. O trabalho está em decidir onde fica essa aprovação, o que trava e o que aparece antes do clique.
Anderson Silveira · 2 de outubro de 2026
Um escritório de advocacia trabalha com execuções judiciais dos dois lados: cobra para quem tem crédito e defende quem está sendo executado. Credor e executado disparam com os mesmos termos, “execução bancária”, “cédula de crédito”. Se a IA inferisse o lado pelo texto e errasse, produziria uma peça defendendo quem o cliente quer executar.
Esse é o tipo de erro que decide o desenho de um produto com IA. Por isso, no agente jurídico que construí para esse escritório, o lado do caso nunca é inferido. É escolha humana, sempre.
A regra geral saiu daí e se repetiu num sistema bem diferente, o pedido por foto de uma distribuidora: a IA propõe, o humano confirma. Este artigo é sobre como essa frase vira tela, e não aviso de rodapé.
Tudo é minuta até alguém aprovar
Os advogados já usavam IA antes do produto, cada um no seu chat. O que faltava não era leitura. Era controle: nada ficava no caso, ninguém sabia quanto uma análise custava antes de pedir, e uma frase sem a página de onde saiu obrigava a reler o dossiê inteiro.
A primeira decisão foi de vocabulário. Tudo o que a máquina escreve é minuta. A interface diz isso em cada análise, cada resposta do chat, cada documento.
Homologar é ato do advogado, com nome e hora registrados. Ao lado de cada análise, um painel chamado “portão humano” mostra quem homologou e quando, quantas referências ainda precisam ser conferidas no original e quantos achados estão sem âncora. Enquanto ninguém homologa, o painel diz “ainda sem revisor”. Quando alguém homologa, uma faixa verde registra a troca de responsabilidade: a análise deixa de ser minuta e passa a ser de quem assinou embaixo.
- 01A máquina propõe
Uma análise, uma linha de pedido, uma lição. Sempre marcada como proposta.
- 02A tela mostra a fonte
O trecho e a página do dossiê; o texto do papel ao lado do que foi entendido.
- 03A pessoa confere
Linha por linha, achado por achado. O que não foi reconhecido trava.
- 04A pessoa assume
Homologar ou confirmar, com nome e hora registrados.
- 05Só então vale
A análise vira parecer; o pedido entra na fila da loja.
Onde colocar a revisão
Dizer que “o humano revisa” não basta. A pergunta é em que ponto da tela, e em que ordem.
No agente jurídico, o botão de homologar mora no fim da página, depois de todo o conteúdo, e o texto ao lado explica o que o clique significa. A leitura cheia da peça, em fonte de documento, só imprime e baixa. Não homologa. A ordem da página é a ordem da responsabilidade: ler, conferir, assumir.
No telefone o advogado consulta a lista, lê a triagem e baixa o documento. Mas a própria tela diz que homologar não se faz pelo telefone, nem redigir a peça. A minuta nasce para ser revisada seção por seção, numa tela onde isso cabe.
No pedido por foto, a revisão fica entre a leitura e o pedido. A foto da anotação fica no topo, com zoom, e cada linha mostra o que estava escrito no papel ao lado do que o sistema entendeu. Linha com dúvida aparece como sugestão: “Não temos certeza. É este mesmo?”, com quantidade editável e as opções de aceitar, trocar ou ignorar. Confirmado, o pedido chega ao painel da loja igual a qualquer outro, com a foto original anexada para quem vai separar conferir.
O que travar
Nem tudo é questão de revisar. Algumas coisas a máquina não pode fazer, e o sistema recusa.
| O que a máquina faz sozinha | O que ela só propõe | O que só a pessoa faz |
|---|---|---|
| Lê o dossiê em blocos e aponta trecho e página de cada achado | A conclusão da triagem, a minuta da peça, a resposta do chat | Escolhe o lado do caso: credor ou executado |
| Cruza cada linha da foto com o catálogo | O produto e a quantidade de cada linha reconhecida | Decide a linha que o sistema não reconheceu |
| Compara o texto gerado com o texto aprovado e sugere lições | Uma instrução para o caso ou uma lição para o escritório | Homologa a análise; promove a lição, se for sócio |
A linha não reconhecida não vira chute. No pedido por foto, ela fica marcada em vermelho, pede que o comprador escolha o produto ou ignore a linha, e o botão de continuar só libera quando não sobra nenhuma linha sem decisão.
Resposta sem fonte é bug. No agente jurídico, toda conclusão cita o trecho e a página. Resposta sem âncora é tratada como bug grave, não como estilo. Página escaneada ilegível é limitação declarada, nunca silêncio.
Aprender também passa pelo portão. Quando a conversa com o agente revela algo que vale guardar, ele propõe uma instrução para o caso ou uma lição para o escritório inteiro. Nada é gravado sozinho. O advogado aceita com um clique, e só um sócio promove a lição a ativa.
Custo visível antes de executar
Controle também é saber quanto custa antes de pedir.
No agente jurídico, antes de qualquer análise, o painel de disparo mostra o caminho (documentos, análise, minuta, revisão), o que a rodada vai ler, que documento está só em imagem e quanto deve custar, contra quanto ainda cabe no orçamento do caso. É uma estimativa de pior caso, calculada sobre a maior rodada que o caso já teve, e a tela diz isso. Só então aparece o botão de disparar. Cada caso tem teto de orçamento.
O controle vai nos dois sentidos
A ideia de “humano no controle” costuma ser lida como a pessoa corrigindo a máquina. Também acontece o contrário.
O fluxo completo do credor foi validado de ponta a ponta num caso real: triagem, parecer, auditoria e minuta homologada no papel timbrado do escritório. Numa das rodadas reais, o plano de peça sinalizou como alerta crítico um erro de prazo que estava na própria orientação humana.
Isso só foi possível porque a máquina não executa a orientação em silêncio. Ela propõe, aponta o que viu e espera. Quando a proposta e a orientação divergem, a divergência aparece para alguém olhar.
O que isso custa
Revisar linha por linha é mais lento do que aceitar tudo. Homologar só no computador é menos conveniente. Escolher o lado à mão é um clique que a IA poderia poupar.
Nos dois projetos, esse preço foi aceito porque o erro do outro lado era maior: uma peça defendendo o lado errado, um tambor de 200 litros no lugar de um balde. Onde o erro é barato e fácil de desfazer, a conta pode fechar diferente. O ponto é decidir, com o custo do erro na mesa, onde a pessoa precisa estar.
O que eu levo
“Humano no controle” não é um aviso no rodapé. É uma decisão de desenho que aparece em cada tela: a etiqueta de minuta, o portão que conta âncoras, o botão de homologar no fim da página, a proposta que espera um clique, a lição que espera um sócio, o custo que aparece antes do botão, o celular que deixa ler mas não assinar, a linha vermelha que trava o pedido.
Nenhuma dessas peças é difícil de construir. O difícil é decidir que elas existem antes de a primeira análise sair bonita e convincente na tela. Depois disso, a tentação de confiar é grande demais.
O case do agente jurídico e o do sistema de pedidos mostram as telas. Em Leitura de documentos em massa com IA, eu entro no que a máquina lê e no que ela erra.
Checklist para pôr gente no controle
- Toda saída da máquina está marcada como proposta, na própria tela?
- Aprovar é um ato com nome e hora, e não um botão de conveniência?
- A fonte de cada afirmação está ao lado dela: trecho e página, ou o original ao lado da leitura?
- O que a máquina não reconheceu trava o fluxo, em vez de virar chute?
- As decisões de maior custo (o lado do caso, a embalagem) são sempre humanas?
- O custo da rodada aparece antes do botão, contra um teto?
Se a resposta a alguma dessas for não, a pessoa está no fluxo, mas não está no controle.